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domingo, 7 de maio de 2017

É hora de dar tchau

Me perdoem pelos pesadelos.
Faz mais ou menos 4 anos esse mês que John e eu decidimos dar um pequeno passo e nos jogarmos para outro continente, outro hemisfério, outro oceano e muitos graus abaixo de zero. Corremos contra o tempo para conseguirmos tirar o visto de trabalho e chegar na terra do dragão no início do ano letivo (que, do lado de cá do Equador, começa em setembro). Quatro longos anos em uma cultura tão diferente que eu estaria mentindo se dissesse que me adaptei totalmente. Mesmo quatro anos depois, ainda me pego em momentos de confusão, choque e desespero em atividades tão cotidianas quanto almoçar e jantar.

Mas como nessa vida até uva passa, passou também a hora de darmos tchau e nos aventurarmos mais uma vez em outro lugar. No final de junho estaremos embarcando rumo à Cidade do Cabo, cidade onde John cresceu e apareceu. De volta ao sul do mundo, ao calor, à boa e velha cultura judaico-cristã ocidental. De volta às comidas que gosto - é, esse é um fato que me levou quase quatro anos para admitir: não sou a maior fã de comida chinesa que há no mundo. Um adeus ao dragão, aos banheiros de agachar, ao tofu fedido, aos gritos espantados de "laowai!" - "gringa!" - nas ruas. Com o passar  dos meses fora da China eu com certeza vou começar a me surpreender com coisas que nunca me dei conta que gostava por aqui, mas existem pelo menos três coisinhas das quais já estou me despedidndo porque desde agora já sei que vão fazer falta:

A praticidade (e preços) do AliExpress com a eficiência da Amazon. Morando na China é impossível escapar da tentação de comprar mil itens úteis (ou nem tanto) pela internet, que chegam na sua casa em no máximo uma semana. TaoBao é uma febre tão grande entre todas as camadas da população que eu diria que o sistema de entrega na China é um dos mais eficientes do mundo. Não apenas frete grátis com a maioria dos produtos, mas eles também são entregues muito rápido. São tão populares que em vários condomínios existem caixas de correio com códigos eletrônicos que você recebe por SMS no celular para poder abrir e retirar sua encomenda. A praticidade é tanta que eu poderia fazer um post inteiro só listando coisas que comprei no TaoBao e recebi na porta da minha casa, que vão desde capinhas para celular até estante de livros. Além da enorme variedade e precinhos bacaninhas, o site conta com sistemas de segurança que devolvem imediatamente seu dinheiro caso dê algum problema - nesse tempo todo de compras regulares, só tive duas situações em que precisei ativar esse sistema. Por isso, quando me perguntarem "Do que você mais sente falta na China", eu tenho certeza de que TaoBao vai sempre ser o primeiro item da lista.

Caixa de correio no meu condomínio e close no computador.
O entregador deposita a encomenda e você recebe um código por SMS para abrir a caixa.
- Chá
Ok, ok, eu sei… Eu reclamei tanto de sempre ser servida água quente em restaurantes e nas casas das pessoas por aqui que de repente falar que vou sentir falta de chá pode soar meio esquisito, mas a verdade é que depois de 4 anos acho que sofri do mesmo mal dos gringos que moram aqui e comecei a não apenas tomar chá durante as refeições, mas realmente gostar de fazer isso. Apesar de ainda achar bem chato ter que ficar esperando o chá esfriar - chineses não fazem isso, eles tomam tudo fervendo, devem ter uma espécie de super mucosa na boca à prova de queimaduras ou coisa do tipo -, me acostumei a tomar vários copinhos de chá junto com o almoço ou jantar. Principalmente quando a comida é muito gordurosa - o que é muito comum aqui -, um chazinho ajuda a aliviar a sensação de peso no estômago. Mas não, não precisam se assustar, pirilampinhos: eu ainda não gosto de água quente.

- Segurança
Quando você vir a galinha, nunca mais vai desver.
Se algum dia vocês decidirem se aventurar por este país em formato de galinha choca e resolverem perguntar para um nativo sobre medidas de segurança que deve tomar, com certeza vai ouvir várias dicas como "ah, precisa tomar muito cuidado, tem muito furto nas ruas, tem que ficar sempre atento, não pode acreditar em qualquer um, tem muito golpista e gente querendo se dar bem", e mais uma longa lista de recomendações que parecem querer fazer você achar que as ruas por aqui são na verdade muito perigosas. Perigo existe, realmente. Furtos são extremamente comuns, portanto tomar aquele velho cuidado de sempre prestar atenção aos seus pertences e carregar a bolsa à frente do corpo em grandes aglomerações é muito bem-vindo por aqui. Sempre ouço dos meus colegas europeus sobre como eles já tiveram celular, carteira e até passaporte furtados - os mesmos, ironicamente, que tiram sarro quando vêem os chineses com a mochila pendurada na frente no transporte público -, mas para quem já morou em praticamente qualquer cidade não muito pequena no Brasil a China é level easy. Nunca, em quatro anos morando nestas terras, eu tive medo de caminhar por uma rua deserta ou voltar para casa depois do sol se pôr. Claro que crimes existem, afinal não teriam como não existir em um país com mais de 1 bilhão de pessoas aglomeradas em cidades gigantescas, mas não são nem de perto tão comuns quanto em outros países. Portanto se tem uma coisa que vou sentir saudade é da sensação de não precisar olhar por cima do ombro ao caminhar nas ruas.

terça-feira, 28 de abril de 2015

As Histórias dos meus Alunos

Aviso: este não é um post feliz.

Ser professora de inglês estrangeira em uma faculdade na China traz com certeza muitas vantagens. Os alunos nos idolatram, os professores chineses querem ser nossos amigos, nosso salário é mais alto e, como na maior parte das vezes somos contratados apenas para aulas orais, não temos pilhas de lição de casa e provas para corrigir. Uma das partes mais interessantes - e uso aqui a palavra "interessante" porque não sei decidir se é uma vantagem ou desvantagem - é que os alunos se sentem bastante à vontade para contar tudo para nós.

Sendo professora de inglês oral, uma das formas de exame é através de uma sessão individual de perguntas e respostas com os alunos. Eu tento variar as questões a cada semestre, porém devido ao nível de inglês dos alunos - que, na melhor das hipóteses, não é excelente -, não tenho muito como fugir de assuntos que sejam familiares a eles. Portanto muitas das perguntas acabam sendo "Conte-me sobre a sua família" ou "Fale sobre a melhor ou pior lembrança da sua infância". Somando isso à falta de filtro social bastante comum nessa geração de chineses, as histórias que ouço são sempre surpreendentes.

Há as histórias engraçadas: uma aluna que, na infância, passou horas procurando com a avó algo que estava o tempo inteiro na mão dela; outra que furtou uma batata doce da vendinha da esquina com os coleguinhas de escola, mas ficou com tanto medo da mãe descobrir que escondeu a batata e nunca mais achou.

Há também as histórias sem noção, como a da aluna que me contou que a melhor lembrança da infância foi quando ela deu uma salsicha ao cachorrinho que o pai tinha dado para ela e o filhote morreu (disse ela que foi uma boa memória porque fez com que ela aprendesse a não dar salsicha a cachorrinhos), ou a outra cuja melhor lembrança foi quando ela foi atropelada e quebrou a perna, pois os pais não saíam de perto dela depois disso.

Mas, como não poderia deixar de ser, há também as histórias tristes.

Antes de continuar, queria explicar que dou aula em uma faculdade "nível 3", o que na China significa uma faculdade para quem não consegue as melhores notas no "Enem" daqui. Muitos dos nossos alunos são gente que não estudou o suficiente no colegial, ou que não deu muita bola, mas muitos outros também são pessoas que não vieram de famílias com dinheiro suficiente para enviá-los a bons colégios. Muitos deles cresceram na zona rural, com pais trabalhadores das lavouras ou fábricas.

E é destes que geralmente ouço as histórias que me deixam com um nó na garganta e que resolvi compartilhar. Nos últimos 4 semestres foram muitas histórias, mas algumas delas ainda me marcam.

Ainda no meu primeiro semestre aqui, tive muitos alunos chorando durante o exame. Se arrependem de não terem estudado melhor no colegial, quando os pais deixavam de comer para mandá-los à escola. Choraram porque tiveram ciúme do irmão mais velho que teve que deixar a escola para trabalhar e sustentar a família. Uma, porque a mãe faleceu ano passado devido a um câncer e ela estava ocupada demais estudando para passar os últimos meses ao seu lado.

Há as incontáveis meninas - dou aula no curso de licenciatura em inglês, portanto 90% dos alunos são meninas - com pais insistindo para que elas se casem, pois mulher não precisa ter carreira. As outras que queriam ser médicas ou engenheiras, mas acabaram neste curso porque os pais disseram que "ser professora é uma boa carreira para uma mulher".

Muitos, incontáveis, choraram porque os pais, tendo que trabalhar, os deixaram para crescer com os avós. Sentem-se abandonados, mesmo sabendo e admitindo - com culpa nos olhos - que os pais trabalham tanto para que eles tenham uma vida melhor. Muitos que foram enviados para colégios internos em cidades distantes desde o primário, e que desde que conseguem se lembrar só vêem a família a cada seis meses.

Semana passada ouvi de pelo menos 4 alunas que seus pais são alcoólatras. Uma delas, sorrindo, me disse que o pai teve que parar de beber por causa de uma doença. As outras, desviando com seus olhos marejados o meu olhar, sentem-se culpadas por não conseguirem fazer seus pais pararem de beber. Foram vários os que me disseram ter que apartar brigas entre os pais, com uma inclusive tendo chamado a polícia para tanto quando ainda tinha 8 anos de idade.

Mas a pior história ouvi ontem, de uma aluna mirradinha, que visivelmente não foi bem-nutrida na infância. Me contou, sem lágrimas nos olhos e até mesmo com um sorriso de quem já contou essa história vezes suficientes para que as palavras venham sem machucar, que sua mãe veio um dia dizer que estava grávida. Ela, então com 14 anos e uma irmãzinha de 7, se revoltou contra os pais. Não por ciúme, ela disse, mas porque já há tempos eles mal tinham o que comer, e onde já se viu os pais arranjarem mais uma criança? Após dias sem falar com os pais, a mãe finalmente conta que, caso o bebê que estava esperando fosse mais uma menina, eles a dariam para adoção. Minha aluna, então, diz que torceu com todas as forças para que fosse uma menina, porque sabia que eles não tinham condição de alimentar mais uma boca. Mas, disse ela, obviamente nasceu um menino e os pais resolveram criá-lo. Ela não se arrepende de ter torcido contra, disse, mas agora ela ama o irmão de 6 anos e sabe que tem responsabilidade, como irmã mais velha, de ter um bom emprego e conseguir dinheiro o suficiente para criá-lo.

Aí sou eu, professora, estrangeira, aquela em quem os alunos confiam e nem eu sei dizer por quê, sem saber o que fazer. Parte de mim quer abraçar aqueles alunos e dizer que vai ficar tudo bem, mas a outra parte sabe que se eu fizer isso com todos os que tiverem uma história triste para me contar, não vou ter tempo suficiente para terminar de realizar os exames com todos. E também sei que eles sabem que não, não vai ficar tudo bem.

Para quem chegou até o final e agora está com o mesmo nó na garganta que eu tenho na sala de exames, eu avisei que este não seria um post feliz.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Sobre a romantização da China

Hoje me deparei com a seguinte matéria, compartilhada no Facebook: Jovem se recusa a ceder lugar em ônibus e apanha de idosos na China. Estive no Brasil mês passado, e uma coisa que já me havia chamado a atenção antes voltou a pipocar na minha cabeça: existe um hábito em países ocidentais - e neste caso não vou nem falar que é problema só no Brasil, porque não é - de romantizar a China e os chineses.
"Ah, porque na China as pessoas são educadas, faz parte da cultura milenar deles!" 
"Chineses é que têm respeito pelos mais velhos!" 
"Na China as pessoas são mais espiritualizadas, elas têm uma conexão com as forças da natureza…" 
"Olha só como chineses são saudáveis, vi no Globo Repórter ontem que eles vivem mais de 100 anos!"
Parem. Somente parem. Inspirem e repitam comigo: Chineses não são criaturas mitológicas saídas de contos de fada, com uma evolução espiritual e sabedoria que ultrapassam milênios. Agora expirem. Em caso de persistir a síndrome de vira-lata, repitam a operação.

Não, nem todo chinês é Confúcio.

A primeira coisa que tenho a dizer é que chineses são - ao contrário do que possam dizer as matérias que vocês leram por aí - pessoas. Humanos, de carne e osso. E, assim como em qualquer outro lugar do mundo onde existam humanos, eles também vêm em várias formas, tamanhos e personalidades. Existem, sim, chineses sábios, educados e espiritualizados, mas também existem - e provavelmente em igual proporção ao Brasilzão que vocês adoram tanto diminuir - chineses ignorantes, mal-educados e extremamente materialistas.

Para ilustrar, vou usar o exemplo da matéria que linkei lá no começo. Já andei de ônibus e metrô aqui em pelo menos 4 cidades de 4 províncias diferentes, e em todas elas a experiência foi bastante parecida com… andar de ônibus e metrô no Brasil. Os assentos preferenciais existem - e aqui eles são para idosos, deficientes, grávidas e crianças (sim, crianças, mesmo, não adultos com crianças de colo) -, mas na ausência de pessoas nestes estados o uso é livre para todos (assim como, olha só, no Brasil).

E, ao contrário do que diz a matéria citada, as pessoas utilizam, sim, estes assentos. Até porque os ônibus aqui - pelo menos em Hohhot, Beijing e Chengdu - têm menos assentos do que os ônibus em São Paulo. E, ao contrário do que diz a matéria citada, nem sempre as pessoas se levantam imediatamente ao ver alguém nas condições preferenciais entrando no ônibus.

Exemplo de chineses da vida real.
Pois é, já vi muita gente fingindo dormir para não ceder lugar no ônibus aqui, também! Em uma ocasião, inclusive, em que cedi meu lugar para um senhor obviamente muito mais idoso do que eu, o tal senhor me agradeceu muito e comentou com o John como era difícil encontrar jovens educados hoje em dia. Hum, interessante… Parece até que já ouvi exatamente a mesma reclamação vinda de idosos de onde, mesmo? Ah, é! Do Brasil!

Outro exemplo extremamente vasto que posso utilizar na minha ilustração são as filas, para qualquer coisa. Mas, hem, que filas?

Chineses - essas criaturas mitológicas tão educadas e transcendentais - não são muito fãs de fazer fila. O que prevalece aqui é a cultura do "quem chegar por último é mulher do padre". Ao invés de filas, o que se vê nas portas de ônibus, cinemas, atrações turísticas, etc, são aglomerados de gente que não se intimida em passar por cima de quem estiver por perto para chegar na frente. E isso, amiguinhos, inclui aquelas mesmas pessoas em condições preferenciais que citei ali em cima. Não importa se a pessoa ao lado é idosa, deficiente ou grávida, ainda vai ter uma montanha de chineses passando por cima dela para chegar na frente.
"Nossa, Tati, então o que você está dizendo é que chineses são gente super sem educação e respeito pelos outros???"
Ei, não, calma aí! Não venham interpretar errado o que eu disse aqui! Eu só tenho uma única e singela intenção com este post, e nem de longe ela é inverter o jogo e fazer vocês acreditarem que chineses são isso ou aquilo. O que eu quero é que parem com essa síndrome de vira-lata, de achar que tudo o que é de fora é melhor e que brasileiro é o pior povo do mundo. O que eu quero é que entendam o que eu repeti à exaustão toda vez que alguém no Brasil me perguntava: "E aí, como é morar na China?".
Gente é gente em todo lugar.
Nem melhor, nem pior. Diferente? Sim, e ainda bem, né?

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Obs.: Para quem sentiu minha falta e estranhou o layout do blog ao chegar aqui, explico. Uma das minhas principais razões por ter sumido por tanto tempo foi que tive uma crise conjugal com o layout antigo, que terminou em divórcio e conseqüente falecimento do dito layout. Como 1. não sou webdesigner e 2. perdi a paciência de procurar layouts que me agradem, resolvi deixar assim, no básico, até segunda ordem. Sobre se vou voltar a escrever com mais freqüência, não vou prometer nada. Vai depender da inspiração e da transpiração. Mas, como sempre, agradeço a quem gosta de ler o que eu rabisco por aqui. =)