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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Supermercado Chinês

Um pouco antes de viajar para a China pela primeira vez, em abril de 2013, me lembro de ter topado com um artigo muito parecido com este aqui: "30 produtos inusitados encontrados no Walmart chinês". Na época cheguei a perguntar para o John se era verdade, mas ele não soube muito bem responder. 

Agora, quase dois anos depois, uma amiga me mandou o link por Twitter, perguntando se era verdade. Como uma boa resposta completa precisaria de bem mais do que 140 caracteres - e como este é com certeza um dos assuntos mais interessantes sobre a China -, resolvi recorrer ao blog para respondê-la. 

A primeira coisa que quero deixar bem clara é que moro no norte da China. A cultura aqui é bastante diferente da sulista, e por aqui não é comum comer coisas esquisitas (carne de cachorro, por exemplo, pode ser encontrada, mas não é muito comum nem bem visto comê-la por aqui). Estive em algumas províncias do Sul e, embora tenha visto vários restaurantes oferecendo iguarias com carne de gato, cachorro, cavalo, burro e etc, não cheguei a ir a um grande supermercado para checar se por lá todas as informações no artigo conferem. Segue abaixo, portanto, a minha resposta baseada no que encontro em supermercados por aqui.


1) Água diet: Pode ser que tenha sido falta de atenção minha, mas a verdade é que nunca vi isso. Porém, levando em consideração os problemas de tradução que eles têm por aqui (me lembrem de preparar um post sobre isso), imagino que seja mais uma confusão do que realmente "água diet". Essa água provavelmente tem algo adicionado que a faça mais "saudável", ou algo assim.

2) Água sabor carne: Já essa é uma que com certeza não tem por aqui. Mesmo que tivesse sido falta de atenção minha e eu nunca tenha notado (porque, na verdade, não costumo comprar água no supermercado), tenho certeza de que algum estrangeiro que mora por aqui teria notado e contado para os outros. 

3) Arroz à vontade: Erm… Depende muito do que o artigo quis dizer com "à vontade". Se a intenção foi dizer "a granel", então sim, é verdade. Não apenas arroz, mas vários tipos de grãos e farinhas também são vendidos a granel nos supermercados. 

4) Balas luxuosas: Bom, agora vou ter que sentar e explicar. Primeiro, não, isso não são exatamente balas, e nem são luxuosas. A foto no artigo na verdade é de stands que ficam ao lado dos caixas nos supermercados, e que vendem na maioria frutas cristalizadas e alguns tipos de doces. Acho que o artigo foi traduzido do inglês, e provavelmente o original dizia "candy", que pode ser traduzido como "doce" ou "bala", e o tradutor escolheu a opção errada.

5) Caixas de licor: Mais uma vez, provável erro de tradução. Imagino que o original dizia "liquor boxes", e "liquor" em inglês significa "bebida alcoólica" (geralmente destilada), e não "licor". Estas caixas que estão na foto são de garrafas de baijiu, a bebida tradicional chinesa e sim, você realmente encontra ilhas nos corredores dos supermercados com promoções desta bebida.

6) Porco: Bom, pra ser bem sincera não é como se não tivéssemos porco nos mercados do Brasil, não é mesmo?! O que faz este produto ser inusitado por aqui é a forma como ele é vendido. Além, é claro, de cortes normais de porco no açougue, eles também têm uma área no mercado reservada a carnes (porco, pato e frango, em geral) já preparadas e prontas para o consumo. Além disso, por aqui eles não têm preconceito com partes de porco, sendo fácil encontrar focinho, patas e orelhas para vender.
Obs.: Quando estive no sul, pude ver barraquinhas de rua vendendo patas de porco para serem comidas como se fossem um espetinho, ou um picolé. As pessoas seguram o osso como se fosse o palito e comem tudo.

7) Carne de raposa: Novamente, outro item que pode ser verdade em outra região da China, mas não para mim. Nunca vi carne de raposa sendo vendida no supermercado, nem ouvi ninguém falar que já tenha comido.

8) Leite de égua: Pra falar bem a verdade, este item parece ser algum tipo de piada interna. A começar pelo "horse milk" (leite de cavalo) ao invés de "mare milk" (leite de égua), e passando pelo "100% horse milk - no ponies" (100% leite de cavalo - nenhum pônei), suspeito bastante que o produto não seja realmente leite de égua. Como, porém, não sou de pôr a mão no fogo por produtos chineses, não vou garantir que não seja verdade. Mas a resposta é não, nunca vi este produto por aqui.

9) Lula seca: Hohhot está bem longe de ser uma cidade litorânea, e frutos do mar em geral são bem difíceis de ser encontrados. Conhecendo produtos que vendem por aqui, no entanto, não duvido que em províncias sulistas (nas quais geralmente se come mais frutos do mar) este item seja vendido nos mercados.

10) Licor a baixo custo: Mais uma vez, "licor" quer dizer "bebida alcoólica". Sim, é possível encontrar baijiu ao preço mostrado na foto, assim como é possível encontrar cachaça a este preço no Brasil. A qualidade, porém, é diretamente proporcional ao preço e a ressaca vem inclusa.
Obs.: Como é difícil encontrar álcool de limpeza por aqui, que só é vendido em farmácias e em vidros minúsculos, eu costumo comprar estes baijius baratos para usar no lugar.

11) Sessão dos patos: Bom, primeiro eu quero comentar o erro grosseiro de ortografia que o artigo inicial cometeu. O correto seria "seção", mas vamos em frente. Patos são encontrados com relativa facilidade em supermercados (principalmente em cidades como Beijing, onde o pato faz parte da culinária tradicional local), e em geral são vendidos na mesma área de outras aves, como frango. Na verdade não entendo por que este item está na lista de "inusitados", sendo que pato é consumido como carne em várias regiões do mundo.

12) Promoção: Compre suco de laranja e ganhe óleo de cozinha ou Compre um Snicker e ganhe uma pilha: Este sim é verdade. Promoções esquisitas deste tipo acontecem o tempo inteiro em supermercados por aqui. Coisas como "compre duas Cocas e leve um escorredor de macarrão" ou "compre uma pasta de dente e leve uma caneca" devem fazer algum sentido para os chineses, e eu suspeito que este sentido esteja diretamente ligado à data de vencimento dos produtos.

13) Salsicha à vontade: Hum… Chineses gostam muito de comer salsichas (e, particularmente, acho todas nojentas), mas nunca vi salsichas a granel sendo vendidas assim como na foto. 

14) "Self-service" de carne e costelas: É, isso é realmente bem comum. Nos açougues dos supermercados a carne fica assim, exposta, e o consumidor escolhe quais pedaços quer levar, põe numa sacola e dá para o açougueiro pesar. Alguns pedaços já são pré-embalados e pesados, mas em geral eles ficam exatamente como na foto.

15) Variedade de ovo: Sim, chineses gostam muito de ovo. Além de ser possível comprar ovo a granel (o que nunca compro, porque você tem que carregá-los em uma sacolinha plástica, o que me dá o maior medo de quebrá-los), também existem vários tipos diferentes. Ovos em conserva, ovos salgados, cozidos, enterrados… Enfim, chineses realmente gostam de ovo.

Se você está seguindo o artigo inicial, provavelmente notou que eu pulei alguns itens. Fiz isso de propósito, porque todos podem ser agrupados na mesma categoria, e também porque provavelmente são os itens que mais chamam a atenção de quem lê. Segue abaixo:

16) Crocodilos, tartarugas, sapos e tubarões: Não, sim, não e não. Nunca vi crocodilos, tubarões ou sapos sendo vendidos em supermercados. Um restaurante perto da minha casa aparentemente tem sapos em um aquário durante o verão, mas levando em conta minha fobia de sapos, agradeço imensamente por nunca tê-los visto. Barbatanas de tubarão são, infelizmente, uma iguaria caríssima na China, e eles compram quando querem realmente impressionar um hóspede. Nunca nem ouvi falar de gente comendo crocodilos por aqui, mas, novamente, no sul eles são muito mais chegados em carnes esquisitas do que por aqui. Tartarugas, por outro lado, são facilmente encontradas nas peixarias dos supermercados, em aquários junto com peixes e lagostinhas. Mas, para ser sincera, nunca encontrei um prato feito com elas em restaurantes ou casas de amigos, então não faço idéia de qual gosto elas têm.

Agora você sabe um pouquinho mais sobre o que esperar encontrar num supermercado caso venha me visitar.

Mudando de assunto, e aproveitando o embalo deste post, gostaria de fazer um pedido. Caso você tenha dúvidas ou sugestões de temas para posts futuros, com coisas sobre a cultura chinesa que gostaria de entender mais ou saber se é verdade ou não, me mande perguntas. Nos links acima você encontra a página do blog no Facebook, onde pode escrever para mim (ou, claro, caso você seja amigo ou família, meu Facebook e Twitter estão à disposição). Ficarei feliz em responder!

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Negócio da China

A China anda expandindo cada vez mais seus negócios, e cada vez mais negócios do mundo inteiro andam expandido para dentro da China. Mas para quem nunca teve nenhum tipo de contato com chineses, a forma como eles fecham negócios pode parecer no mínimo… diferente.

Engana-se quem pensa que negócios são fechados com chineses dentro das quatro paredes de um escritório. As quatro paredes entre as quais se discutem os assuntos mais importantes são aquelas de um bom restaurante.

A primeira coisa sobre ir a um restaurante chinês - e aqui não me refiro àqueles restaurantes "do povo", de higiene meio duvidosa, mas sim a restaurantes de média e alta qualidades - é que a maioria possui duas áreas: a área comum, com mesas e clientes que só estão lá à procura de um almoço ou jantar; e a área "VIP", onde se encontram salas especiais para almoços e jantares privados. Qualquer restaurante que se preze tem pelo menos umas três salas reservadas, que podem variar desde uma sala simples com uma grande mesa redonda até uma suíte com sala de estar, copa e banheiro privados, além de uma TV com karaokê (chineses simplesmente amam karaokê).

Cada uma destas salas é atendida por uma equipe especializada de garçons e garçonetes - por sinal, a qualidade do setor de serviço na China é algo que deixarei para um post futuro. As mesas são geralmente grandes - acomodam de 5 a 15 pessoas -, redondas e com um disco giratório ao centro, onde é servida a comida.

Ah, a comida… Se você for uma daquelas pessoas que já passeou pela Liberdade e acha que por isso sabe tudo sobre comida chinesa, esqueça. Se você diz que gosta de comida chinesa porque adora pedir um yakissoba no boteco da esquina, esqueça mais ainda. Comida chinesa tem muito pouco ou quase nada a ver com aquilo que conhecemos no Brasil.

Mas como estou falando de um almoço ou jantar de negócios - e o mesmo vale para almoços e jantares comemorativos, de aniversário ou coisa parecida -, a comida não importa. Ela não está lá para ser a protagonista, nem mesmo a segunda da fila.

Marque bem minhas palavras: se você for convidado para um almoço ou jantar na China, entenda que a comida é o que menos importa neste convite. A função da comida é simplesmente a de ser uma desculpa para o real protagonista: o baijiu.

O baijiu é a bebida tradicional da China. Em geral ele é feito de arroz, mas também há variantes com trigo e outros cereais. A gradação alcoólica do baijiu é entre 40 e 70% (no link da Wikipedia diz entre 40 e 60%, mas já vi - e bebi - baijiu de 68%). Ou seja, muito maior do que a maioria das bebidas ao redor do mundo.

O baijiu é transparente, como água ou cachaça, e tem um aroma bastante forte. A princípio ele tem um gosto bastante estranho para quem não está acostumado, mas depois de várias ocasiões já posso dizer que até gosto dele agora.

E os almoços ou jantares se seguem assim: cada pessoa tem uma jarrinha na qual o baijiu é servido, e uma taça bem pequenininha, onde ele é bebido. E, assim que começa o almoço ou jantar, começam também os brindes.

Brindar com o baijiu é sinal de grande respeito, e portanto todos devem fazê-lo ao menos uma vez. A não ser que você tenha uma desculpa muito boa - como um problema sério no fígado ou tome alguma medicação forte que não possa ser misturada com álcool -, suas chances de escapar de um brinde com baijiu são mínimas. E os brindes não páram por aí: cada pessoa tem que brindar pelo menos uma vez com cada uma das outras pessoas na mesa - e no mínimo duas ou três com o anfitrião. 

A ordem dos brindes é mais ou menos assim: o anfitrião brinda com cada convidado ou grupo de convidados - diretores de uma mesma empresa, por exemplo, brindam juntos -, depois cada convidado ou grupo de convidados brinda entre si, depois com o anfitrião. Algumas vezes o anfitrião voltará a brindar com algum convidado específico, outras vezes não. E, caso alguém de hierarquia superior à sua venha brindar com você, o educado é você ir brindar com ele um tempo depois. 

A cada brinde, é esperado que você vire uma taça inteira de baijiu. Nada de só molhar os lábios, não. Após o brinde, há a tradição de virar a taça para mostrar que está vazia. 

Uma coisa muito importante ao brindar com um chinês é saber onde tocar um copo no outro. Ao brindar com pessoas de hierarquia superior, sempre mire a boca do seu copo ou taça abaixo da boca do outro copo. Quanto mais diferença de hierarquia, mais baixo você deve mirar. É considerada uma grande gafe brindar acima de alguém superior, apesar de haver tolerância com os gringos. Mirar baixo é, portanto, uma ótima forma de mostrar que conhece e respeita os costumes locais.

Obviamente, após 20 minutos de brindes, todos já estarão pra lá de Bagdá - e este é o momento ideal, caso você ainda esteja sóbrio o suficiente, para fingir que bebeu tudo ou até mesmo tentar disfarçadamente servir água ao invés de baijiu para brindar. A comida, esta personagem do elenco de apoio, estará lá para ajudar os convidados a se manterem em pé. E os brindes não param por aí: quanto mais eles bebem, mais querem brindar. E aí brindam pela saúde do filho, do cachorro, do periquito, do peixinho dourado do vizinho do quarto andar…

Aí você poderia pensar que, bom, se já estão todos muito bêbados, o almoço ou jantar termina por aí, certo? Errado! Nesta hora começam as tradicionais rasgações de seda entre os convidados e o anfitrião. E, se for um grupo de pessoas animadas, elas podem começar a cantar.

Sim, aqueles homens sérios, de ternos e engravatados, se levantam - se segurando na mesa para não cair - e começam a entoar suas canções favoritas. Algumas vezes até seguram um lencinho para enxugar as lágrimas no canto do olho.

Então, após no mínimo uma hora e meia de reunião - na qual negócios são discutidos, também, não tenham dúvida -, é hora de ir. Todos se levantam, se equilibrando o melhor que podem, e saem felizes, algumas vezes até abraçados ou de mãos dadas. Em geral todos sabem quem é o anfitrião e não há discussão para pagar a conta, mas no caso de refeições entre amigos ou família esta discussão pode tomar mais uns bons 15 minutos antes de irem embora.

E é assim, entre baijiu e canções, que negócios são fechados, aniversários são celebrados e conquistas são comemoradas na China. E você que pensava que chineses eram um povo fechado e mal-humorado, hem?