terça-feira, 28 de abril de 2015

As Histórias dos meus Alunos

Aviso: este não é um post feliz.

Ser professora de inglês estrangeira em uma faculdade na China traz com certeza muitas vantagens. Os alunos nos idolatram, os professores chineses querem ser nossos amigos, nosso salário é mais alto e, como na maior parte das vezes somos contratados apenas para aulas orais, não temos pilhas de lição de casa e provas para corrigir. Uma das partes mais interessantes - e uso aqui a palavra "interessante" porque não sei decidir se é uma vantagem ou desvantagem - é que os alunos se sentem bastante à vontade para contar tudo para nós.

Sendo professora de inglês oral, uma das formas de exame é através de uma sessão individual de perguntas e respostas com os alunos. Eu tento variar as questões a cada semestre, porém devido ao nível de inglês dos alunos - que, na melhor das hipóteses, não é excelente -, não tenho muito como fugir de assuntos que sejam familiares a eles. Portanto muitas das perguntas acabam sendo "Conte-me sobre a sua família" ou "Fale sobre a melhor ou pior lembrança da sua infância". Somando isso à falta de filtro social bastante comum nessa geração de chineses, as histórias que ouço são sempre surpreendentes.

Há as histórias engraçadas: uma aluna que, na infância, passou horas procurando com a avó algo que estava o tempo inteiro na mão dela; outra que furtou uma batata doce da vendinha da esquina com os coleguinhas de escola, mas ficou com tanto medo da mãe descobrir que escondeu a batata e nunca mais achou.

Há também as histórias sem noção, como a da aluna que me contou que a melhor lembrança da infância foi quando ela deu uma salsicha ao cachorrinho que o pai tinha dado para ela e o filhote morreu (disse ela que foi uma boa memória porque fez com que ela aprendesse a não dar salsicha a cachorrinhos), ou a outra cuja melhor lembrança foi quando ela foi atropelada e quebrou a perna, pois os pais não saíam de perto dela depois disso.

Mas, como não poderia deixar de ser, há também as histórias tristes.

Antes de continuar, queria explicar que dou aula em uma faculdade "nível 3", o que na China significa uma faculdade para quem não consegue as melhores notas no "Enem" daqui. Muitos dos nossos alunos são gente que não estudou o suficiente no colegial, ou que não deu muita bola, mas muitos outros também são pessoas que não vieram de famílias com dinheiro suficiente para enviá-los a bons colégios. Muitos deles cresceram na zona rural, com pais trabalhadores das lavouras ou fábricas.

E é destes que geralmente ouço as histórias que me deixam com um nó na garganta e que resolvi compartilhar. Nos últimos 4 semestres foram muitas histórias, mas algumas delas ainda me marcam.

Ainda no meu primeiro semestre aqui, tive muitos alunos chorando durante o exame. Se arrependem de não terem estudado melhor no colegial, quando os pais deixavam de comer para mandá-los à escola. Choraram porque tiveram ciúme do irmão mais velho que teve que deixar a escola para trabalhar e sustentar a família. Uma, porque a mãe faleceu ano passado devido a um câncer e ela estava ocupada demais estudando para passar os últimos meses ao seu lado.

Há as incontáveis meninas - dou aula no curso de licenciatura em inglês, portanto 90% dos alunos são meninas - com pais insistindo para que elas se casem, pois mulher não precisa ter carreira. As outras que queriam ser médicas ou engenheiras, mas acabaram neste curso porque os pais disseram que "ser professora é uma boa carreira para uma mulher".

Muitos, incontáveis, choraram porque os pais, tendo que trabalhar, os deixaram para crescer com os avós. Sentem-se abandonados, mesmo sabendo e admitindo - com culpa nos olhos - que os pais trabalham tanto para que eles tenham uma vida melhor. Muitos que foram enviados para colégios internos em cidades distantes desde o primário, e que desde que conseguem se lembrar só vêem a família a cada seis meses.

Semana passada ouvi de pelo menos 4 alunas que seus pais são alcoólatras. Uma delas, sorrindo, me disse que o pai teve que parar de beber por causa de uma doença. As outras, desviando com seus olhos marejados o meu olhar, sentem-se culpadas por não conseguirem fazer seus pais pararem de beber. Foram vários os que me disseram ter que apartar brigas entre os pais, com uma inclusive tendo chamado a polícia para tanto quando ainda tinha 8 anos de idade.

Mas a pior história ouvi ontem, de uma aluna mirradinha, que visivelmente não foi bem-nutrida na infância. Me contou, sem lágrimas nos olhos e até mesmo com um sorriso de quem já contou essa história vezes suficientes para que as palavras venham sem machucar, que sua mãe veio um dia dizer que estava grávida. Ela, então com 14 anos e uma irmãzinha de 7, se revoltou contra os pais. Não por ciúme, ela disse, mas porque já há tempos eles mal tinham o que comer, e onde já se viu os pais arranjarem mais uma criança? Após dias sem falar com os pais, a mãe finalmente conta que, caso o bebê que estava esperando fosse mais uma menina, eles a dariam para adoção. Minha aluna, então, diz que torceu com todas as forças para que fosse uma menina, porque sabia que eles não tinham condição de alimentar mais uma boca. Mas, disse ela, obviamente nasceu um menino e os pais resolveram criá-lo. Ela não se arrepende de ter torcido contra, disse, mas agora ela ama o irmão de 6 anos e sabe que tem responsabilidade, como irmã mais velha, de ter um bom emprego e conseguir dinheiro o suficiente para criá-lo.

Aí sou eu, professora, estrangeira, aquela em quem os alunos confiam e nem eu sei dizer por quê, sem saber o que fazer. Parte de mim quer abraçar aqueles alunos e dizer que vai ficar tudo bem, mas a outra parte sabe que se eu fizer isso com todos os que tiverem uma história triste para me contar, não vou ter tempo suficiente para terminar de realizar os exames com todos. E também sei que eles sabem que não, não vai ficar tudo bem.

Para quem chegou até o final e agora está com o mesmo nó na garganta que eu tenho na sala de exames, eu avisei que este não seria um post feliz.

2 comentários:

Mariana Leutwiler disse...

:(

Monique Leutwiler disse...

Não é de todo triste, pois mostra o carinho e atenção com alunos e que o que eles mais querem é alguém para ouvi-los! lindo e gratificante amor pelo próximo